A melancolia dessa quarta - feira me fez querer falar um pouco mais de passado, de rejeição, das entranhas das minhas fraquezas. Me fez ter a tendência suicida de escancarar as piores verdades.
Não tive uma infância ruim; Pelo contrário, analisando friamente, sempre morei em casa própria, tive estudo particular, brinquedos e nunca passei nem frio e nem fome. Não abusaram sexualmente de mim e nem assisti a cenas sórdidas de sexo ou violência.
Mas, sabe, pensar que uma criança pobre vá crescer, impreterivelmente cheia de problemas é tão imbecil quanto achar que os ricos tem vidas perfeitas.
Mais uma vez, a vida mostrava sua ironia...
Há pouco tempo, quando vivi o Câncer, ouvi muita gente dizer que me admirava, e que era uma situação hercúlea sem sequer saber do que se tratava.
Bom, eu, particularmente, acredito que cada um lida e sofre os problemas de uma maneira, além do mais o próprio conceito de PROBLEMA é pessoal e totalmente intransferível.
É, eu sofri um câncer e vos falo...foi tranquilo. Foi ruim, dolorido, demorado, mas passei com honra ao mérito. Não estava ali meu calcanhar de Aquiles.
Hoje, desempregada a míseros 2 meses, desesperada, vejo o que realmente é o meu inferno. Não sei lidar com isso e, pasmem, em 2 meses de desemprego, já sofri bem mais do que em 1 ano de tratamento de câncer.
Na minha infância, tb sinto essa "ironia" da vida, pois como disse, não tive grandes traumas, pelo contrário, tive uma vida que, vista pela janela era até bem divertida. Mas, problemas "simples" como estar acima do peso, ter uma mãe ausente e competitiva, ou como estar desempregada é que são os verdadeiros holocaustos para mim.
Quando as pessoas conhecem a minha família, a princípio não conseguem entender a minha carência, a minha reclamação, afinal, todo mundo é tão legal...
Mas eu nunca tive MÃE! Minha mãe biológica vive comigo até hoje, mas ela jamais foi mãe de criação, sabe? A mãe que ensina, que repreende, que dá apoio, colo, carinho, que manda usar o guarda-chuva e que, com olhar orgulhoso te vê crescer.
Quem é órfão tem ideia do que estou falando, mas não tive a oportunidade de ter sequer as esmolas de carinho, a solidariedade e o afeto de quem se compadecia do meu orfanato porque mamãe estava logo ali, sempre a alguns metros de mim.
Não só sempre fui invisível para ela, como fui alvo de competição.
Sabe a irmã mais velha que morre de ciúmes da mais nova?
Aos 2 anos, lembro quando eu tinha pesadelos, corria pro quarto da minha mãe que imitava monstros e saía perambulando, tirando sarro do medo que eu sentia.
Chorava baixinho e esperava todo mundo dormir para sonhar um mundo em que pudesse correr pros seus braços e você me proteger.
Meu pai, do contrário, sempre foi o meu herói, o meu paizão. Esteve ali, pra me apoiar com seu ar todo desajeitado.
Meu pai nunca teve muito tato pra lidar comigo, mas me deu o que eu mais precisava, amor.
Toda criança chega para a mãe querendo colo, proteção, carinho quando sofre qualquer tipo de ameaça em sociedade. É o famoso "vou contar tudo pra minha mãe!" (porque supostamente, ela irá tomar alguma atitude em minha defesa). Pois também eu corria. Minha mãe ria da minha cara, me mandava deixar de ser besta, brigava comigo e dizia o quanto eu era idiota.
Lembro que eu fazia de um tudo pra ser aceita. Naquela época, já achava que, se alguém não queria brincar comigo era porque eu não era boa o bastante. Se minha mãe não me dava colo e dizia ter me achado na lata do lixo (era de brincadeira, mas, eu acho que, aos 6 - 8 anos é difícil aceitar e entender isso como tal), dizia que eu era tonta e que tudo o que eu fazia direito não era mais que minha obrigação, é porque eu REALMENTE não era boa o bastante.
Quando era adolescente, minha mãe resolveu que era a hora de descontar em mim a rigidez que o pai dela teve com ela;
"Mãe, posso ir na casa de fulana?"
"Não!"
"Por quê?"
"Por que não!"
E, tambem tinha a clássica demonstração de poder...ela tinha necessidade absoluta de provar - se maior do que eu, mais importante hierarquicamente falando.
Eu praticava esportes, e ela era dona de casa. Meu pai pagava o carro dela para que ela me levasse à escola, ao treino, para que ela cuidasse da casa e também saísse para se divertir. Quando faltavam 5 minutinhos para sairmos para o meu treino, ou para os jogos de campeonato ela teimava em dizer que não ia. Fim. Não ia porque não queria e ponto final.
Eu chorava, soluçava e, a essa hora não adiantava querer pegar ônibus, carona ou ligar pro meu pai. Já não dava tempo. Restava - me tirar o uniforme do time e deitar na cama e chorar. Nem bem escorriam as primeiras lágrimas no travesseiro, ela aparecia, fanfarrona na porta do quarto "Você não está pronta?!".
Parecia que havia uma necessidade quase que cruel de sentir - se dona das minhas emoções, de controlar o que eu sentia.
Vieram os namorados, os estudos, os traumas e briguinhas de escola e NUNCA, mas NUNCA minha mãe me disse: "filha, nem sempre vamos acertar; Deus nos dá vitórias e também derrotas para que póssamos crescer. Você sempre pode tentar de novo!"
O que eu ouvia? VOCÊ NUNCA VAI CONSEGUIR HAHAHAHA!
Minha mãe não me ensinou que é normal tropeçar, que não é possível acertar e ganhar todas. Ela deu a entender que a cada derrota, tropeço, erro eu me torno pior, mais frágil, mais inferior.
Quando estava no segundo ano de faculdade eu sabia que não queria ser dentista, mas se parasse ali, eu daria razão a ela, eu realmente provaria que eu não consegui e, levada por uma imaturidade, segui em frente.
Os namorados, o sexo, os medos, a crise por ser gorda nunca foram muito conversados com o meu pai também. Ele era aquela presença ali, onde eu sempre encontraria um abraço, aquela pessoa que também achava que eu não ia conseguir mas não por não ser capaz, mas por ser ainda uma criança (meu pai me trata como adolescente até hoje!).
Quando me formei, me vi livre da minha mãe...e, foi aí que me vi perder meu pai. O casamento deles, por causa da personalidade mimada da minha mãe, havia acabado e, ele não havia conseguido se separar como deveria.
Conheceu outra pessoa e, achando que devia esconder isso de mim, se afastou. Foram longos 4, 5 quiçá 6 anos de distanciamento, nós três morando sob o mesmo teto, cada um num quarto.
E, então eu descobri que meu pai tinha outra família. Morri um pouco por dentro pois o meu melhor amigo não havia confiado em mim, pois eu havia sido privada de viver o nascimento do meu irmãozinho, porque ele sequer sabia quem eu era.
De repente, eu resolvi crescer, resolvi que não ia mais precisar de ninguém porque amá-los sem me sentir amada havia me machucado demais.
A vida veio, riu da minha cara e eu me vi careca, em meio à quimioterapia no mesmo mês em que meu pai finalmente saíra de casa.
A essa altura, vovó já morava com a gente e era para a minha mãe, a MÃE que eu queria ter tido quando criança.
Elas viviam um Universo paralelo e, enquanto eu amargava enjôos, dores e encarava o tratamento de frente, elas viviam sua rotina tranquilamente. Assisti minha avó cuidar da minha mãe como se eu não existisse pois, pobrezinha, ela tinha uma filha com câncer!
Minha mãe agia como se eu tivesse morrido, como se eu não estivesse ali. Fazia um circo, um teatro pra ir ao médico comigo, mas, nos dias das consultas, ela sempre esquecia e eu acabava indo sozinha. Fui eu sozinha quem brigou com o convênio para que eu pudesse fazer meu tratamento. Todo mundo sabia, e, se esquivava, seguia cada qual o seu caminho, a sua rotina.
E agora, bom...agora estou aqui, inútil como ela (que brinca o dia inteiro no Facebook e vive às custas da pensão da minha avó de 93 anos), dependente como ela, simplesmente lembrando que não, "VOCÊ NUNCA VAI CONSEGUIR HAHAHAHA!".
Obviamente sou carente e não sou amorosa com ela. Também obviamente, ela não tem a menor ideia do motivo pelo qual eu seja assim. Nunca a ensinaram que pessoas erram, e que devemos ser humildes.
Tento não culpá-la e até consigo. O que eu não consigo é não sentir falta, é aceitar que não tenho o colo, a MÃE quando eu preciso, porque ela está ali, a míseros 5 ou 6 passos de mim. O que não consigo é entender como não se manifesta nela o amor incondicional, instintivo que toda mãe tem por sua cria.
Chorei hoje o dia inteirinho, e ela fingiu que não viu. A empregada anunciou, e ela fingiu que não ouviu.
Talvez tudo isso explique porque preciso tanto trabalhar, me sentir útil e dependente apenas de mim. Tenho pavor de depender de quem não parece me enxergar, sabe?
Talvez, isso tudo explique meu desespero em conseguir um emprego, e, minha dor imensurável cada vez que dá errado e, que eu tenho que lidar com a rejeição. Então eu encaro as palavras dela do quanto não sirvo pra nada, sou idiota, inútil ou não vou conseguir.
Eu não sou uma pessoa burra, mas sou uma pessoa com muita dificuldade de lidar com meus erros. Não consigo aceitá-los como naturais, lembrando que todo mundo erra. Eu SEMPRE acho que meus erros são mais burros, mais justificáveis pela incapacidade e incompetência do que qualquer outra coisa. Eu nunca sou boa o bastante. Se consegui algo, nunca foi pelo meu esforço, sempre foi porque alguém deve ter me ajudado.
Quando eu cresci e me livrei da necessidade de colo de mãe, a vida veio e me colocou um relacionamento que deu muito errado pra que eu precisasse dela, mas ela não esteve lá e eu chorei sozinha; Me deu um câncer para que eu precisasse dela, e ela também não esteve lá e eu lutei sozinha. Agora, me deu o desemprego, e, eu novamente preciso dela...e...adivinhem? Ela não está aqui.
O que tudo isso quer dizer?
O que é que eu tenho que aprender com tanta lágrima, com tanta solidão e rejeição? Eu faço o meu melhor, superei tudo sozinha até hoje, por que diabos preciso continuar nessa lição?
Eu não quero, eu não aguento mais esperar por um carinho, um colo, um abraço que mesmo eu pedindo, nunca vem. Por favor, me deixa seguir em frente com a minha vida?
Eu só queria voltar a ser eu mesma e lembrar de como é sorrir e ser feliz....
quarta-feira, 12 de maio de 2010
No Divã
quarta-feira, 12 de maio de 2010
Pensando em:
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10 comentários:
Nossa Ana, que soco no estômago esse post. Que difícil deve ter sido pra vc escrever isso tudo, dizer com todas as letras que sua mãe simplesmente não se importa! Me deu até um certo desespero imaginar que existe uma mãe assim. Você não acha que valeria a pena conversar com ela, talvez ela não mude, talvez nada mude, mas ao menos para ela saber?! Se eu fosse você, imprimiria esse post, muito bem escrito por sinal, e colocaria em alguem lugar onde ela pudesse pegar sem que você precisasse entregar pra ela, sabe?! Sei lá, acho meio loucura você simplesmente aceitar, sem tentar falar com ela, mostrar pra ela, fazer ela enxergar o que ela fez, e o que faz. Não sei se é besteira o que estou falando, mas esse post me deixou triste!
Cara, cai em lágrimas ao le r seu post.
SAbe aquelas histórias que a gente ve em novela, mas nunca acha que vai ter alguem assim na vida real?
Pois é! fiquei deprimida ao ler, então imagina vc que vive isso na pele todos os dias.
Acho tb que vc deveria sentar com ela e com sua avó e falar tudo o que escreveu se não adiantar, ao menos desabafar vai te fazer bem.
Estarei orando por vc.
Beijos fique com Deus.
Meninas, muito obrigada pelas palavras. Infelizmente, a ideia que vcs tiveram eu tb já tive!
Já tentei conversar e explicar de todas as maneiras. Já pedi pra psicólogo, tia, meu pai falar com elas e a resposta é sempre a mesa: "eu sou dramática"!
A ideia não é deprimir ninguém, é só explicar o motivo pelo qual eu ando reclamando tanto por estar desempregada.
Muito obrigada!
beijos
Poxa, nem sei o que dizer... É a primeira vez que visito o blog e, realmente, esse post é um soco no estômago. Eu me formei há 5 anos e meio e fiquei muito tempo desempregada, sem rumo. Nesse quesito (e somente no que respeita a ele), sei exatamente como vc se sente.
Lendo seu post, parecia que estava lendo a minha história, acho que é a segunda vez que entro aqui, cheguei até aqui pelo blog da Freda.
Esse post me fez rever muitos momentos, a minha sorte é que a mãe do meu pai sempre morou em casa e ela sim foi minha mãe, ela me levava na escola, ela brincava comigo ela me amava, minha mãe preferia a minha irmã eu era a retardada, a imbecil (palavras dela pra uma criança), quando tive uma crise depressiva e só chorava e gastava meu dinheiro compulsivamente ela me acusou de estar usando drogas. Quando falei que ia fazer faculdade de direito ela disse não, vc não vai conseguir e foi toda a família pro psicologo e não adiantou, ela fez direiro e não conseguiu a OAB, então como eu iria conseguir??
Em 2006 meu pai (meu herói) chegou e me contou que tinha outra família (mulher e 3 filhos) e quando a separação aconteceu eu fui a culpada de tudo. Chegou a me bater e ligar pro meu pai ir buscar minhas coisas, quando ele chegou lá estava tudo em sacos de lixo...
Nossa vida daria um livro, fácil, fácil.
No meu blog falo dessa parte da separação...
Conte comigo.
Beijos
Ô Mari, dá aqui um abraço, amiga!
As pessoas por aí acham que só se pode ter doença, fome, falta de um teto como problemas, mas...infelizmente somos muito mais frágeis e vulneráveis.
Muitas são as coisas que nos machucam, mas sabe? O que não derruba, fortalece!
beijo grande
Coisa que acredito agora:
Você não está sozinha. Olha a sua cura. Repare em como você é corajosa. O desespero e a depressão minam a coragem e você ainda a tem. Maravilhoso isso. Espíritos mais fracos pensariam em outras soluções horríveis. Você não!
Você fez muito bem em escrever. Aliás como você escreve bem!!!!
Deve ler também muito bem, aposto!
Procure na leitura um amansar da sua alma sofrida.
Esse sofrimento e fome que você tem é legítimo ( não é drama bobo não), é seu , e você tem o fardo que pode carregar. Você conseguirá carregar pois é atenta, sensível e inteligente.
Dois meses de desemprego não é demais , calma!!!!. Surgirá uma boa oportunidade para você que será para você ;
Busque o auto conhecimento e não pare de chorar se for preciso para limpar de vez esse coração que dói.
Pensar que há problemas piores no mundo ajuda , pode acreditar nisso. Ajudar as pessoas com problemas também é bacana, há uma certa distração do que se passa no nosso umbigo e a satisfação de doar amor é maravilhosa.
Doe palavras - tem um programa que passa mensagens dos internautas para um hospital de pacientes com cancer
Doe sua visão_ tem trabalhos voluntários para leitura de livros, cartas, correspondências para cegos
Desculpe, falei demais????
Há estórias mais fáceis sem desafios,porém os desafios e as grandes indagações da vida são dadas aqueles que escolhem fazer alguma diferença .
Oi amiga
poxa
de longe tento "te ajudar",mas sei que nestas horas é praticamente impossivel,gostaria de encontra-la pessoalmente,nem que for para chorarmos juntas,você é MUITO IMPORTANTE PARA MIM e também é um PUTA EXEMPLO.
Sempre foi a primeira pessoa que pedia conselhos,enchia teu saco com meus problemas,minhas neuras,minhas alegrias,etc,etc.
Ficamos um bom tempo sem nos ver mas para mim você sempre esta do meu lado,idependente se fisicamente ou pelo msn.
Enfim gostaria muito de poder fazer algo de grande valia nesta hora,com gestos simples em troca de tudo que vc já me ensinou
Te amo minha amiga do coração
beijão
Meu Deus
Manda a tua mãe pro Pinel! Sinceramente, que porra de mae é essa que te fez sofrer desse jeito.
Sei que agora nao adianta nada te falar alguma coisa porque os teus sentimentos vão ser os mesmos, mas amiga.... nao te sente tão encolhida assim porque daqui a pouco tu vai estar proxima do chao, que nem uma minhoquinha.
Se Deus te fez passar por tudo isso e hoje tu está com uma cabeça super boa e com consciencia de tudo o que passou.... então amiga, já é prova viva de que tu é muito maior do que esses problemas que te afligiram na infancia, adolescencia.
Abre a janela, fecha as portas e sorria pro mundo e pras pessoas que te querem bem, o resto amiga.... é o resto e disso nao precisamos entender e nem sequer saber.
Só te interessa pelo que te faz feliz.
bjos
Meninas, não tenho palavras pra agradecer o carinho, mas né?
É assim que a vida é...a gente tá nesse mundo, cada um para aprender suas lições e cumprir suas metas.
Esse é o meu clube...rs
beijos
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