Quem acompanha minhas alucinações por aqui já sabe um pouco dessa história e, quem me conhece já não aguenta mais saber, mas, eu sou repetitiva, fazer o quê?
Desde novinha, fui criada de uma maneira conflitante com meus impulsos, minhas vontades.
Por volta dos 15 anos, queria trabalhar em loja de shopping pra ganhar uma graninha só minha, ou então, na locadora da rua de casa. Era o trampo dos meus sonhos. Passar a tarde inteira assistindo filmes, lançamentos, atendendo um ou outro cliente, inclusive com certo tempo pro dever de casa.
Cheguei a fazer uma entrevista com o moço da Locadora, mas aí, meu pai vetou.
Meu pai é um cara bacana, liberal pra caramba, cabeça boa. Seu defeito é o orgulho!
Ele veio de família bem pobre, trabalhou em 2 subempregos pra bancar faculdade e tal. Maior orgulho da vida dele, os filhos não PRECISAREM trabalhar pra pagar os estudos.
E, aí eu digo que ele errou!
Errou porque, pra um adolescente, é muito importante aprender o valor do trabalho, a responsabilidade, entender e se interessar por um mercado no qual está prestes a competir.
Acho uma lição imprescindível que não tive.
Não é questão de precisar financeiramente, e sim, de precisar para a formação de caráter, para formação do "adulto", sabe?
Obviamente, na época eu não sabia isso e, bem, não vejo absurdo ou algo incomum, o adolescente se conformar com a ideia de só estudar e ganhar sua mesadinha só na vida mansa.
É muito mais fácil aceitar o mais cômodo do que batalhar pra fazer o que se quer quando isso implica perder suas regalias.
A gente (eu, pelo menos) trabalha para ganhar dinheiro e, com ele poder ter a vida que achar mais adequada e feliz. Se você pode ganhar esse mesmo dinheiro sem ter que trabalhar... É como nego dizer que continuaria trabalhando caso ganhasse na mega sena! Lamento...hipocrisia pura!
*Trabalho voluntário nem entra na discussão porque, é ÓBVIO que ninguém o realiza com qualquer tipo de fim lucrativo.
Continuando...
Se, naquela época eu soubesse o que eu sei hoje, teria insistido sim.
Se o erro do meu pai foi facilitar as coisas pra mim a ponto de eu perder essa valiosa lição, o meu erro, foi não ter a humildade suficiente pra ver que eu era uma cabaça, totalmente inexperiente e não estava pronta pra escolher uma faculdade.
Meu pai me deu a liberdade de fazer o que eu bem entendesse e, nessa fase, eu deveria ter dito: QUERO TRABALHAR!
Eu disse que faria faculdade, fiz o curso errado (não que eu odeie, mas a somatória de não gostar muito e não valer à pena financeiramente é o suficiente pra considerar minha escolha um fracasso), me formei e fui trabalhar.
Andei, corri, me arrastei como se estivesse numa esteira mecânica, saca? Você faz o esforço, dita a velocidade, tudo depende de você, só que você simplesmente não sai do lugar.
Num determinado momento, meu pai precisou do meu nome e, eu, com toda a experiência em atos acomodados que havia aprendido, corri pra baixo da asa dele sob o pretexto de ver a empresa de perto. De cuidar do meu CPF.
De fato, foi uma escolha inteligente, porque, na minha ausência, a tragédia teria se abatido no segundo ano já talvez. Segurei o quanto eu pude, mas a quem eu queria enganar?
Claro que fui trabalhar na empresa por comodismo, por ser mais fácil e pra não ter a responsa! Eu já imaginava que não conseguiria endireitar a cabeça do meu pai e evitar que ele cometesse os mesmos erros administrativos de sempre, mas, era bem cômodo fingir que eu tinha esperanças.
Seis ou sete anos se passaram e a bomba estourou. Não cabem aqui os motivos que nos levaram a chegar nessa situação extrema na empresa. O intuito é contar a história que é só minha e, nessa história, esse momento de quebra (ou quase, porque não quebrou, mas também não está de pé) da empresa me trouxe finalmente a consciência da minha realidade.
Daí que, quando você dá de frente com o espelho e a imagem da sua vida, você saca cada uma das suas cagadas e sente um gosto amargo, cruel de "eu devia e podia ter feito diferente!".
Chorei, desesperei, fiquei com muita raiva e vergonha de mim.
Entendi que negligenciei minha vida, que "mamei nas tetas" que me apareceram na frente, sem jamais me preocupar em construir meu futuro. Eu sou o porquinho que fez a casa de palha para ter mais tempo pra me divertir e viver a vida.
Aos poucos, entendi que nada do que eu fizesse agora poderia mudar o que já foi. Era hora de tentar fazer, antes tarde do que nunca, o esforço, o trabalho que eu nunca fiz.
(Não é que eu nunca tenha trabalhado ou me esforçado. Me refiro aqui às dificuldades de trabalhar, estudar e bancar a si mesmo tudo ao mesmo tempo como a maioria dos estudantes brasileiros)
Comecei - e continuo - a procurar emprego, fazer planos para entrar numa nova faculdade e, tentar chegar a algum lugar.
Até agora isso não deu em absolutamente nada. A rejeição nas entrevistas te joga pra baixo e me faz ter a certeza de que eu não sirvo pra nada.
Diante daquela mesma imagem no espelho que me fez chorar, é muito, muito difícil acreditar que eu seja capaz de sair desse buraco, de ser alguém algum dia.
Autoconfiança? Não trabalhamos...
A série de fracassos leva ao desespero - e se eu nunca mais conseguir nada?
Nem a fé de que as coisas são como elas devem ser me fazia companhia.
Tenho uma amiga que insistia que eu prestasse um concurso público. Não ri na cara dela porque ela poderia não entender e sentir - se ofendida, sabe?
Mas, eu sempre soube que é impossível, que é pra poucos e chega a ser mais tenso do que vestibular. Imagine...eu, indisciplinada, preguiçosa e incapaz como a imagem do espelho, tendo a petulância de me inscrever num concurso público.
Ela me ofereceu umas apostilas emprestadas e, eu, sem graça, resolvi aceitar.
Nessa fase, todo o furacão era bem recente, então eu estava totalmente fora do eixo e, seria bem providencial dizer que eu iria estudar pra dar uma fugida da realidade, pra não ter que encarar que a vida lá fora era muito feia e estava me apavorando demais.
E, aí, ironia do destino....a preguiça, a indisciplina e a incapacidade de sair atrás de um recomeço, de um emprego, virou força e disciplina pra estudar.
Fui ficando feliz comigo porque em alguns dias, cheguei a estudar 6 horas! Cara, nem na época de faculdade eu estudei tanto!
A semana da prova chegou. Era um mix de sensações. O dever cumprido por ter conseguido ter a disciplina de estudar, a coerência e noção de realidade de que aquilo não era o suficiente, o nervoso por estar prestes a fazer uma prova que mostraria a todo mundo que não sou inteligente como todos pensam e esperam. Ali, era o momento final, a prova dos nove de que eu sou apenas uma mulher medíocre, mediana.
Faz entrevista daqui, entrevista dali, passa o mês e chega o dia de publicarem o resultado no Diário Oficial...
Acordei com um mal estar terrível, medo, uma vontade de não ver esse resultado. Uma briga interna entre "não pensa negativo porque tudo o que a gente pensa, a gente atrai pra nossa vida!" e "porra, não viaja, não se enche de esperança porque você sabe que não foi bem o suficiente pra passar!".
Abri logo o link do resultado. Corria os olhos pelas páginas, olhando uma a uma as cidades que não eram a minha.
A barriga gelada, o pânico na goela já e, quando chegou na fatídica página, tudo embaralhou. Juro, acho que cheguei a quase desmaiar!
Daí, meu nome brilhou.
Estava ali...nome, sobrenome, inteirinho.
Eram 21300 inscritos e apenas 867 foram aprovados. Eu fiquei em 346º lugar.
Li, reli, li mais uma vez e gritei. Gritei com dor, com desespero, com o choro rolando e uma das emoções mais incríveis que já senti.
Gritei pra que eu ouvisse, porque eu nunca acreditei.
E chorei, chorei e gritei baixinho porque ninguém mais pode entender o tamanho daqui pra mim.
Não, eu não sou um completo fracasso, não sou medíocre, e não vou depender financeiramente de alguém pro resto da vida. Não vou ser estorvo, motivo de pena, de vergonha. Eu juro, isso era muito palpável já para mim.
Já me via nessa situação, já pensava em como eu teria que me virar.
Eu estava convencida de que perdi essa vida, essa chance e que só na próxima é que eu poderia construir minha vida com tijolos de trabalho.
E eu tava ali, naquela lista, cheia de esperança, emocionada.
Muito mais do que um emprego futuro (ainda preciso ser chamada, passar nos exames e entregar a documentação necessária. Sim, eu ainda tenho medo), isso era a esperança, era o sonho de ainda poder ser alguém.
E, pra quem quiser ter uma ideia do que eu senti, do tamanho que era esse grito entalado na garganta e, do quão patética eu fiquei gritando, é só dar uma olhada nesse vídeo e, deleitar - se com nosso "querido" Galvão!
segunda-feira, 21 de junho de 2010
É TEEEEEEEEEEETRAAAAA!
segunda-feira, 21 de junho de 2010
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2 comentários:
Parabéns pelo seu sucesso. Mas faz uma pesquisa no seu CPF em tudo que é orgao para ver se nele não aparece os problemas da empresa.Porque quem faz concurso publico não pode ter empresa em seu nome.
Obrigada, anônimo.
De fato, o CPF "limpo" é uma exigência em muitos concursos, mas não na Caixa! Já me informei a respeito.
valeu o toque!
abraço
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